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Porque seu paciente superdotado não é só “inteligente”

O maior desafio no âmbito da superdotação não está na ciência dos pacientes de que, muitas vezes, precisam de serviços especializados para se compreenderem e buscaram saúde mental e física. Está no passo anterior: dos profissionais entenderem realmente sobre esta condição e como desenvolver um trabalho efetivo com esta população.

Seu paciente superdotado não é só inteligente. Ele tem um sistema nervoso mais sensível e reativo às informações cognitivas e emocionais que o rodeiam. Ele pode ter sido um bebê “high need”, ou seja, com choro constante e intenso, menor necessidade de sono (pois alterações de sono – para mais ou para menos – são comuns nesta população) e alterações sensoriais que dificultavam atividades básicas desta faixa etária como se alimentar, tomar banho, receber colo e estimulação mental.

Ele pode ter sido uma criança sensível (a tudo!): que capta as emoções alheias, percebe situações sociais e problemas para além do desejado pelos adultos, que se incomoda com sons, texturas de alimentos, tecidos de roupas e a costurinha da meia. Pode ter sido a criança que não foi compreendida pelos pares (porque gostava de falar extensamente sobre os temas de seu interesse, inventava regras mais complexas para deixar a brincadeira mais interessante e achava infantil alguns comportamentos dos colegas) e, por isso, se isolou socialmente. Por outro lado, também pode ter sido a criança com alta energia, vontade de fazer mil e uma atividades extracurriculares (possivelmente com bom desempenho nas mesmas), com inteligência interpessoal bem desenvolvida e um perfil carismático e de liderança.

E agora, cá está seu paciente adulto superdotado: o que é tão bom em tantas coisas que nunca terminou nenhuma de suas graduações. Ou o que teve tanto afinco e que sua percepção refinada do mundo ao redor, junto a uma determinação acima da média nas tarefas que gosta, levaram-no a um perfil perfeccionista e “workaholic”. Ou o que racionaliza todos os seus sentimentos e “resolve” todas as questões tranquilamente. Ou o que tem tamanha intensidade emocional, que já teve diagnósticos incorretos de Transtorno Bipolar ou de Transtorno de Personalidade Borderline, mas nada “fechou” e continua buscando respostas.

E você, profissional? Você sabia que seu paciente superdotado não é só inteligente?

Sim, a superdotação envolve uma facilidade acima da média em alguma área de habilidade: podendo ser cognitiva, acadêmica, psicomotora, artística ou social. Assim, que caia por terra o estereótipo do mini gênio do Caldeirão do Hulk. Se você buscar por estes, vai identificar apenas os tipos acadêmicos com bom desenvolvimento de raciocínio lógico-matemático. Não esqueça dos que têm uma habilidade excelente de resolução de problemas práticos, e que talvez tenha até falhado na escola por achar tudo aquilo muito sem sentido e entediante. Não esqueça do que se destaca entre os colegas nos esportes ou na habilidade corporal para dança e teatro. Não esqueça dos que têm talento especial para artes plásticas, música e quaisquer outras formas de expressão artística que rotulamos de apenas talento (e não esqueça que talento é apenas a expressão desta habilidade acima da média que compõe a superdotação). E não esqueça, por favor, daquele que encanta todos com suas palavras e lidera grupos como quem rege uma orquestra – nem todo superdotado tem dificuldades sociais.

Prazer, este é o verdadeiro paciente superdotado: que é inteligente sim, mas também sensível, observador, intenso em seus interesses, complexo em seu pensamento, determinado para resolver as questões que lhe são relevantes, que é criticado por querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo, que tem uma curiosidade insaciável, que se sente inconformado com a injustiça e o sofrimento humano, que pode ver muitos lados para quase todas as questões e adora um bom debate, que se sente impulsionado pela própria criatividade, que se sente responsável por problemas que realmente não pertencem a ele, que tem sensibilidades sensoriais.

Em minha prática, trabalho com a avaliação de superdotação e transtornos do neurodesenvolvimento de crianças à adultos. Infelizmente, me deparo com profissionais que, por desconhecimento destas características que citei, não conseguem auxiliar seus pacientes em suas demandas. E não falo apenas de neuropsicólogos – muitos pacientes se queixam de processos psicoterapêuticos estagnados por não serem compreendidos. Não venho aqui para criticar meus colegas, pois eu mesma só tive contato com a superdotação após terminar minha graduação. Mas venho com um apelo: pense, com carinho, em seus pacientes. As estimativas mais conservadoras falam em 3 a 5% da população tendo altas habilidades em alguma área. Quantos dos seus pacientes seriam? Pense, ainda, que por terem uma sensibilidade e intensidade emocional (assim como uma busca pelo autodesenvolvimento), muitos superdotados procuram serviços psicológicos e talvez esta porcentagem seja ainda maior em nossos consultórios.

Ficou na dúvida? O primeiro passo é encaminhá-lo para uma boa avaliação neuropsicológica. Nesta avaliação, não olharemos apenas para um QI – porque QI não é sinônimo de inteligência e testes psicométricos têm suas limitações. Mais do que isso, muitos destes pacientes nos procuram diante de quadros de ansiedade e depressão, os quais afetam a cognição. Assim, uma boa avaliação engloba aspectos socioemocionais e um histórico compreensivo do caso. Após, recomendo a leitura de materiais de qualidade sobre o tema e a participação em grupos de psicoeducação, como o que desenvolvemos aqui no Instituto POT.

Em quantos pacientes tive o prazer de ver melhora pelo simples entendimento de quem são, aceitação de seus interesses e ritmo de aprendizado/trabalho, necessidade de desenvolver vínculos em grupos diferentes para suprir suas demandas sociais e desenvolvimento de uma dieta sensorial que favorecesse sua autorregulação. Mas para aqueles que precisam de um acompanhamento mais individualizado, sugiro aos profissionais que busquem conhecimentos (não apenas teóricos, mas práticos!) sobre o manejo destes pacientes. Neste caso, cursos de formação e supervisões lhe ajudarão. Tenho a certeza de que isto abrirá seus olhos para um mundo que você ainda não conhecia. Seja bem-vindo ao universo da superdotação!


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